Abstract
Contexto: Com o envelhecimento populacional casos em que idosos assumem o cuidado de outros idosos são frequentes nos serviços de atenção à saúde. Por este motivo, em uma iniciativa inédita, reconhecendo esses idosos cuidadores como sujeitos de direitos, muitas vezes tão ou mais vulneráveis do que aqueles a quem eles cuidam criou-se em 2007 o Ambulatório para Cuidadores em um serviço de geriatria e gerontologia de uma Universidade Federal na cidade de São Paulo, Brasil. Abordagem: Envelhecer não é sinônimo de adoecer, mas é fato que o envelhecimento pode acarretar um aumento significativo de doenças, que quando não controladas aumentam o risco de limitações físicas, perdas cognitivas e sensoriais, sintomas depressivos e isolamento social culminando na necessidade de auxílio. Neste contexto emerge a figura do cuidador. O cuidador desempenha a função de cuidar de pessoas dependentes em uma relação de proximidade física e afetiva, podendo ser um familiar (cuidador informal) ou um profissional, capacitado para este fim (cuidador formal). No Brasil, o cuidado informal é predominante na assistência aos idosos. Dentre esses, muitos são idosos, com baixa escolaridade, períodos prolongados de cuidado e ausência de revezamento para as atividades desempenhadas, o que contribui para o surgimento de problemas físicos e psicológicos, aumentando a vulnerabilidade biológica destes cuidadores. Reconhecendo as necessidades desses idosos, que assumem a árdua tarefa de cuidar de outro idoso foi idealizado e implantado um ambulatório constituído por assistente social, médico, nutricionista, enfermeiro e psicólogo, cujo objetivo é oferecer atendimento interdisciplinar atendendo às necessidades clínicas, psicológicas e sociais de idosos cuidadores. É importante ressaltar que o apoio e o atendimento a esses idosos não se encerra quando estes deixam de ser cuidadores. O cuidador continua a ser atendido por um prazo mínimo de seis meses até que possa lidar com sua perda e desvincular-se da tarefa de ser cuidador e então é encaminhado a outro serviço para assistência e acompanhamento. Resultados: Em 17 anos de funcionamento o ambulatório atendeu 354 pacientes. Atualmente estão em acompanhamento 63. Destes, 88,9% são mulheres, 47,6% cuidam da mãe. A cuidadora mais velha tem 88 anos e cuida do esposo de 84. A maioria dos idosos cuidadores destes pacientes dedica-se exclusivamente ao cuidado, 24 horas por dia. Essa dedicação reforça o quanto os cuidadores tendem a não priorizar a sua própria saúde, desenvolvendo por vezes o esgotamento físico e emocional, caracterizado como estresse do cuidador. Por este motivo, um dos instrumentos aplicados neste ambulatório além da Avaliação Geriátrica Ampla – AGA é a “Caregiver Burden Scale”, que identifica o impacto da doença no cuidador. Os cuidadores atendidos referem sentir-se amparados para enfrentar as dificuldades, pois podem contar com a assistência de uma equipe multiprofissional capacitada para lidar com todos os desafios impostos pelas tarefas de cuidado. Implicações: Esse ambulatório presta assistência especializada a idosos cuidadores focando na saúde destes, muitas vezes negligenciada pela carga do cuidado prestado; e contempla a necessidade de inclusão do tema, idosos cuidadores, na agenda das políticas públicas brasileiras para garantir o oferecimento de suporte formal a estes cuidadores.
