Abstract
Antecedentes: Os migrantes são confrontados com barreiras persistentes e específicas no acesso aos serviços de saúde, incluindo barreiras administrativas, receios associados à incerteza da duração da sua permanência, discriminação, falta de informação e pouca familiaridade com o modo de funcionamento do sistema de saúde do país de acolhimento, barreiras linguísticas e interculturais (OLIVEIRA, 2022). Em 2021, os naturais do estrangeiro mostraram maior prevalência de necessidades médicas não satisfeitas (6,4%, +0,8% que os nativos), quando comparados com os naturais portugueses (5,6%). (ODEMIRA INTEGRA_3G, Plano Municipal para a Integração de Migrantes, 2020-2022).
Abordagem: Em 2023, o Comité de Filantropia da Reiter Affiliated Companies efetuou um questionário a 595 trabalhadores agrícolas em Odemira que revelou a sua dificuldade no acesso aos cuidados de saúde (CS), o desconhecimento sobre o seu funcionamento e sobre as atividades promotoras de bem-estar. Com esta informação, o Comité convidou a Unidade Local de Saúde do Litoral Alentejano – Centro de Saúde de Odemira (ULSLA-ODM) a criar um projeto trianual para responder às necessidades identificadas. Para a criação deste, a ULSLA–ODM associou-se à TAIPA, associação sem fins lucrativos local com trabalho feito nos últimos anos junto da população migrante em Odemira. Interligação fundamental na potencialização dos conhecimentos em Saúde com a intervenção comunitária intercultural.
O projeto é de implementação comunitária, dirigido aos trabalhadores migrantes do sector agrícola e comunidade envolvente, a residirem na faixa litoral de Odemira. Pretende contribuir para a mitigação das dificuldades no acesso aos CS, através do desenvolvimento de uma sociedade capacitada, num modelo sustentável, que possibilite minimizar as desigualdades nesta população. Pretende capacitar os profissionais das instituições de saúde para a prestação de cuidados em contexto de multiculturalidade e; capacitar o grupo-alvo e a comunidade envolvente sobre Literacia em Saúde.
Para a sua realização foi necessária uma ação conjunta, entre os vários parceiros, tendo-se conseguido a adesão de várias empresas agrícolas e associações comunitárias para a realização das várias atividades no local de trabalho e em horário laboral. A nível de financiamento, o projeto está a ser cofinanciado pelo comité de filantropia, pelo Município de Odemira e pelas próprias instituições executoras.
Resultados: Ao longo do ano de 2024, fez-se a caracterização sociodemográfica e de qualidade de vida do grupo alvo através da aplicação de 350 questionários digitais multilingue. Efetuou-se dois cursos para profissionais de saúde sobre serviços inclusivos na saúde através da Fundação Aga Khan Portugal, abrangendo 37 profissionais de 11 profissões e 5 instituições diferentes. Iniciou-se as sessões de literacia em Saúde dirigidas ao grupo alvo que se vão perlongar até ao fim do projeto. A primeira sessão foi sobre Saúde Mental, tema fundamental. Até ao final deste ano, há 17 sessões agendadas em 4 empresas sobre 6 diferentes temas definidos como prioritários.
Implicações: Pretende-se que este projeto abra espaço e seja a base para novas intervenções num futuro próximo e que seja consolidado de forma sustentável, integrando-se nos processos da vida laboral e na vida da comunidade envolvente. Transformar, não acrescentar.
